Adélia Prado abre seu livro "Bagagem", parafraseando Carlos Drummond de Andrade, 'Com Licença Poética' e diz:
...ser coxo é maldição para homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
No entanto, o anjo torto havia ordenado ao poeta:
Vai, Carlos! ser gauche na vida.
Os sentimentos de ser desdobrável ou ser gauche marcam duas diferenças incontestes entre homens e mulheres, que a poeta fez questão de ressaltar
ao se espelhar no colega que admirava, aproveitando para fazer uma sutil provocação ao sexo masculino.
A castração, resultante da operação edipiana, é responsável por essas impressões tão fundas em todos nós, homens e mulheres,
'fracos e abandonados por Deus', no dizer do poeta itabirano.
No entanto, Lacan diz que a mulher é 'menos castrada que o homem', afirmação que, no mínimo, provoca estranheza, uma vez que é o homem quem possui o órgão sexual exposto.
Mas. ele está se referindo justamente à castração simbólica, herança histórica do Édipo, que determina que o menino renuncie à sua mãe e a menina ao seu pai como objetos amorosos, depois de anos de investimento afetivo.
( A rigor, ambos renunciam à mãe e ao pai, mas essa digressão me desviaria do que quero focar. Acontece que o Complexo de Édipo não é uma operação. Ele é uma equação com várias operações. A que me interessa, agora, é a operação final e majoritária,numericamente falando, em relação a meninos e meninas.)
Por que Lacan assinala que a mulher é menos castrada do que o homem?
Na saída do conflito edipiano a menina percebe (e tem que admitir) que por mais que ela ame o seu pai, ele sempre quererá primeiro a sua mãe (ou uma outra mulher!), enquanto o menino entende que, por mais que sua mãe o ame, inquestionável e incondicionalmente, ela sempre lhe será inacessível.
Essa diferença produz efeitos importantes no homem e na mulher.
Parece restar à mulher uma condição de possibilidade, ao passo que para o homem, o objeto está irremediavelmente perdido.
Ou seja, a lei do pai é mais rigorosa para o filho.
A personagem Antígona, filha de Édipo, em um tempo no qual as mulheres não tinham nenhuma importância, já encarnava essa estrutura.
Defendendo o direito de enterrar o seu irmão, ela afirma: "Não fui gerada para odiar, mas para amar". Ela abala a tirania ao não se submeter às leis humanas considerando-as contra as leis divinas.
Mulher é desdobrável. Ela está sempre procurando uma saída, assumindo mais uma responsabilidade, resolvendo problemas e disponibilizando soluções para quem ama.
Se a barra tá pesada o homem fica abatido, cansado e fechado em sua circunstância, tem dificuldade para sair do lugar, sente-se gauche e parece coxo.
Evidentemente, há também os momentos em que a mulher fica mais chata que o homem.
Por exemplo, quando ela, sempre insatisfeita, retruca: 'Ah, agora eu não quero mais, quero outra coisa".Enquanto o homem, pacientemente, tenta se resignar ao fato de nunca alcançar a satisfação que gostaria de lhe dar.
De novo, as diferenças estruturais decorrentes do Édipo.
E, por falar em estrutura, é importante ressaltar que o que eu escrevi
está quase certo!
Não se trata de diferenças de gênero e sim de estrutura.
Em uma estrutura reconhecemos a grande maioria das mulheres e, em outra, a grande maioria dos homens.
Mas, as exceções são possíveis e nem tão incomuns.
Conheço muitos homens admiráveis e lindos, apesar de um pouco coxos.
Mas, as mulheres me surpreendem mais.
Especialmente, escrevo sobre esse tema para homenagear minha irmã Rita,
admirável em sua capacidade de amar e se desdobrar.
terça-feira, 4 de maio de 2010
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Minha querida, obrigada pela homenagem. Belo texto! A sua teoria, que alinhava tão delicadamente poesia e psicanálise, me ajuda a equilibrar meu jogo de malabares...Beijos carinhosos, Rita.
ResponderExcluirsó pra continuar a conversa de ontem, vc fala d"o" homem ..de "uma" mulher...de um indefinido feminino... conte-nos mais...o que é mesmo o feminino?
ResponderExcluirJuliana disse...
ResponderExcluirse a própria palavra feminino é masculina, como alcançar o feminino em nós?
Márcia e Juliana,
ResponderExcluirBoas provocações...
Vejam só como a língua nos marca com suas restrições e impossibilidades.
A língua é sempre simbólica, portanto, masculina.
Lalangue é materna,feminina, aponta para o Real e é condição de alteridade...
O Real seria o feminino???
Tá quase certo!!!Ou completamente errado???
Grata pelas questões.
Beijo
Beatriz,
ResponderExcluirReuníamo-nos, eu e várias amigas psicanalistas para um chopp de sexta-feira, há muitos anos, no "Arroz com Feijão", bar que nem existe mais, aqui na Savassi...Nomeamos o nosso encontro de "Clube das mulheres desdobráveis" kkkk pleonasmo pelo que posso entender hoje,pois todas o são, caso sejam mulheres hehe, pelo enfático motivo de que não sendo nomeáveis, nem representáveis por um significante que as identifique....só podem se desdobrar e desdobrar em bla bla bla, e na vida, enquanto mulheres. Desconfio até que nem tinhamos muito a capacidade de constituir um 'clube'como os homens o fazem. Mas que era divertidíssima a horda, era! Agora veja o nosso 'hino': Elegia de Caetano Veloso que cantavamos límpidamente ao cair da tarde das sextas. Pesquise e verá..."Deixa que minha mão errante adentre, atrás, na frente, em cima, embaixo, entre...etc etc." Ah! os limites à mulher...
Não entendo muito de psicanálise, mas percebo, no contato diário no trabalho e em casa, que as mulheres são sempre mais surpreendentes e, em regra geral, muito menos apreensíveis do que nós, homens. Talvez seja a causa de tantos conflitos matrimoniais essa diferença entre o padrão (homem) e a multiplicidade (mulher). Sei lá. A realidade me parece sim.
ResponderExcluirParabéns pelo texto!
Fez pensar.
Bjs
Leo
9 de maio de 2010 14:29
A discussão está tão boa, por que parou??? Escreva mais! Queremos mais! Você já deu mostras de que tem muita coisa interessante para dividir com a gente!
ResponderExcluirBeijo,
Lulu
Tambem estou esperando mais...aqui em Paris da muita vontade de discutir psicanalise...rsrsrs
ResponderExcluirBj.