terça-feira, 4 de maio de 2010

Mulher é desdobrável.

Adélia Prado abre seu livro "Bagagem", parafraseando Carlos Drummond de Andrade, 'Com Licença Poética' e diz:



...ser coxo é maldição para homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.



No entanto, o anjo torto havia ordenado ao poeta:



Vai, Carlos! ser gauche na vida.



Os sentimentos de ser desdobrável ou ser gauche marcam duas diferenças incontestes entre homens e mulheres, que a poeta fez questão de ressaltar

ao se espelhar no colega que admirava, aproveitando para fazer uma sutil provocação ao sexo masculino.



A castração, resultante da operação edipiana, é responsável por essas impressões tão fundas em todos nós, homens e mulheres,

'fracos e abandonados por Deus', no dizer do poeta itabirano.



No entanto, Lacan diz que a mulher é 'menos castrada que o homem', afirmação que, no mínimo, provoca estranheza, uma vez que é o homem quem possui o órgão sexual exposto.

Mas. ele está se referindo justamente à castração simbólica, herança histórica do Édipo, que determina que o menino renuncie à sua mãe e a menina ao seu pai como objetos amorosos, depois de anos de investimento afetivo.



( A rigor, ambos renunciam à mãe e ao pai, mas essa digressão me desviaria do que quero focar. Acontece que o Complexo de Édipo não é uma operação. Ele é uma equação com várias operações. A que me interessa, agora, é a operação final e majoritária,numericamente falando, em relação a meninos e meninas.)



Por que Lacan assinala que a mulher é menos castrada do que o homem?



Na saída do conflito edipiano a menina percebe (e tem que admitir) que por mais que ela ame o seu pai, ele sempre quererá primeiro a sua mãe (ou uma outra mulher!), enquanto o menino entende que, por mais que sua mãe o ame, inquestionável e incondicionalmente, ela sempre lhe será inacessível.



Essa diferença produz efeitos importantes no homem e na mulher.



Parece restar à mulher uma condição de possibilidade, ao passo que para o homem, o objeto está irremediavelmente perdido.

Ou seja, a lei do pai é mais rigorosa para o filho.



A personagem Antígona, filha de Édipo, em um tempo no qual as mulheres não tinham nenhuma importância, já encarnava essa estrutura.

Defendendo o direito de enterrar o seu irmão, ela afirma: "Não fui gerada para odiar, mas para amar". Ela abala a tirania ao não se submeter às leis humanas considerando-as contra as leis divinas.



Mulher é desdobrável. Ela está sempre procurando uma saída, assumindo mais uma responsabilidade, resolvendo problemas e disponibilizando soluções para quem ama.



Se a barra tá pesada o homem fica abatido, cansado e fechado em sua circunstância, tem dificuldade para sair do lugar, sente-se gauche e parece coxo.



Evidentemente, há também os momentos em que a mulher fica mais chata que o homem.

Por exemplo, quando ela, sempre insatisfeita, retruca: 'Ah, agora eu não quero mais, quero outra coisa".Enquanto o homem, pacientemente, tenta se resignar ao fato de nunca alcançar a satisfação que gostaria de lhe dar.



De novo, as diferenças estruturais decorrentes do Édipo.



E, por falar em estrutura, é importante ressaltar que o que eu escrevi

está quase certo!



Não se trata de diferenças de gênero e sim de estrutura.

Em uma estrutura reconhecemos a grande maioria das mulheres e, em outra, a grande maioria dos homens.

Mas, as exceções são possíveis e nem tão incomuns.



Conheço muitos homens admiráveis e lindos, apesar de um pouco coxos.

Mas, as mulheres me surpreendem mais.

Especialmente, escrevo sobre esse tema para homenagear minha irmã Rita,

admirável em sua capacidade de amar e se desdobrar.

sábado, 3 de abril de 2010

Topologia: Caetano, Mandela e... Lula

Meu irmão, jornalista, me disse que a psicanálise, hoje, parece show, está sempre na midia.
Respondi-lhe que a psicanálise, como espetáculo ou explicação, não acrescenta nada.
As aparições de psicanalistas comentando fatos instantâneos do jornalismo parecem vazias e óbvias, pouco acrescentando ao senso comum ou à descrição do acontecimento, que fala por si mesmo dentro do contexto que o inscreve.

Mas, sem dúvida, a psicanálise situa-se no campo das humanidades e faz parte da mentalidade da nossa época. Todo mundo, vez ou outra, se pega falando de seus achados.


É por isso, que a psicanálise lacaniana se interessa por conhecer as estruturas topológicas
e as suas propriedades.
Porque, depois de se desvencilhar de falações e comentários sobre qualquer fato,
o que resta é a estrutura e essa serve a uma mostração.



Mostrar é muito diferente de comentar ou demonstrar.
Comentar inclui suposições imaginárias e demonstrar exige um suporte simbólico.
Mostrar refere-se ao Real, ao que surge, ao que surpreende.
Ao que é (re)colhecido.




Roberto Carlos e Caetano Veloso, juntos, mostram que o que é belo não tem outros adjetivos.

Uma mostração tem efeitos de significação que ultrapassam as palavras e explicações.
Exemplos interessantes desse 'fenômeno da mostração' podemos encontrar em algumas situações políticas recentes que transformaram povos e países.

O filme Invictus, que recorta um momento da trajetária de Nelson Mandela no início do exercício de seu poder constituído na África do Sul, relata o momento em que o líder
mostra a seu povo que o país passara a ser um só, de brancos e negros.
Quando veste a camisa do capitão do time de rugby, Mandela sustenta a estrutura de uma
nação após o fim do apartheid e mostra a igualdade e a unidade entre os cidadãos.
Duas figuras emblemáticas representantes de dois grupos étnicos oponentes, juntas, (trans) formando um só time e um só país. A camisa com o mesmo número era o significante deste real.


No Brasil, a eleição do presidente Lula, também foi um momento de mostração.Levar à presidência da república um operário, de instrução mediana, popular no estilo de vida e no jeito de falar, foi mostrar que a nação era, de fato, coisa pública, e o mérito político, na forma da democracia, é que definia o governo.E houve muita 'falação' do grupo oponente. Dizia-se que o país iria à falência, que o PT não tinha 'quadros' para ocupar os cargos executivos, de mil e uma maneiras projetava-se o desastre.Um verdadeiro romance.

Falou-se... falou... falou-se... e o que foi aparecendo foi uma outra cena. O país crescendo, os índices econômicos melhorando, a satisfação popular aumentando. Reconhecimento externo tanto no âmbito da diplomacia quanto no de investimento de capital. E a novela teve que declinar.

Ficou muito difícil ter assunto para falação.Restou a estrutura: um governo democrático, orientado pela constituição brasileira, respeitoso quanto às tradições do povo da nação.

Os 'enfeites', além da estrutura, ou seja, a plataforma política, as prioridades, as escolhas de ação são todos legítimos, uma vez que se trata de um governo legitimamente eleito.E os oponentes têm que se haver com isso.

O real é que um operário de instrução mediana pode governar muito bem o país.

Essa torção, absolutamente, determinante para o Brasil , tem repercussão por um tempo, a priori, incomensurável e ( é por isso) se agitam 'as oposições' no momento de uma nova eleição presidencial. Recomeçam as falações que visam ocultar o que já foi visto.

A psicanálise pode apontar isso, sem fazer show.





sexta-feira, 2 de abril de 2010

A surpreendente Banda de Moebius



Essa é uma ilustração da banda de Moebius.Reparem que a superfície que as formigas percorrem é unilátera.Não há dentro nem fora, avesso ou direito.É essa figura topológica que Lacan usa para falar da estrutura consciente/inconsciente. No youtube pode-se encontrar vídeos que explicam a confecção da banda(ou fita) de Moebius e suas propriedades. Vale a pena ver e se surpreender...!!!

quarta-feira, 31 de março de 2010

O Ato do Encontro

Canções, com frequencia, me capturam e me põem a trabalhar.
Aconteceu, mais uma vez, ontem, quando ouvi "Como dois e dois",
composição de Caetano Veloso, cantada por Roberto Carlos.
Pensei na letra, na música, na interpretação do cantor e... caí na psicanálise, e... na rede.
Pois, o efeito seguinte, foi a decisão de iniciar a atividade que, há tempo, vinha gestando.
Emergiu o nome do blog e o viés através do qual desejava tratar o meu tema: a psicanálise.
Somar dois e dois e encontrar cinco, está quase certo, ou, completamente errado.
Posição incômoda, muito familiar ao sujeito que procura a psicanálise.

A canção, belíssima, talvez um soul, tem uma letra meio enigmática, repleta de antíteses
e, contextualizada, parece remeter à posição de Roberto Carlos diante da ditadura militar.
No entanto, a arte fica e os tiranos vão e, hoje, ninguém vai pensar em militares ao ouví-la.
Mas, o que mais me intrigava era esta curiosa parceria entre Caetano Veloso e Roberto Carlos.
Lembrei-me da estranhesa que ela provocou, a princípio, quando veio a público.
Roberto Carlos, um cantor de multidões, romântico, rei de uma música feita para o consumo fácil.
Caetano Veloso, um artista revolucionário, complexo, profundo, quase hermêtico em sua linguagem.
E a parceria era perfeita: canções lindas e interpretações emocionantes.

Lembrei-me de Lacan e de sua Topologia, especialmente, de uma figura: a banda de Moebius.
Uma estrutura topológica que dá conta de um espaço contínuo e não-orientado.
Para o psiquismo não há dentro ou fora, profundo ou superficial.
A presença de Roberto Carlos junto a Caetano Veloso faz uma torção na imagem do Rei.
O mesmo acontece com Caetano Veloso: o que se pensava dele fica retorcido.
A partir daí, o direito e o avesso passam a se encontrar em continuidade, numa margem única
que apoia, justamente, o paradoxo que associa a clareza ao enigma
Assim, o ato do encontro dos artistas fala muito mais a nós, em nossa dupla inscrição
consciente/inconsciente, do que podemos supor ao nos comovermos com a beleza da canção.

terça-feira, 30 de março de 2010

A Psicanálise na Rede


Tá quase certo!

Ou... tudo certo como 2 e 2 são 5.
Falta um 'tiquinho assim' para estar certo.

Ou... está completamente errado!
E trata-se de um grande equívoco.

A Psicanálise, hoje, não é uma terapêutica.
Ela acolhe o sintoma e aponta para a falta, a incompletude, a barra.
A barra entre natureza e cultura;
a barra entre significante e significado;
a barra entre mim e o Outro.

O analista se autoriza a si mesmo e entra na rede para apontar a trama.
Busca saídas e entradas nos furos e nos impasses.
Deseja apoiar-se na música, na poesia, no cinema, nas artes.
E procura parceiros, amigos, interlocutores.
Contemporâneos no espaço virtual : real, simbólico e imaginário.