sábado, 3 de abril de 2010

Topologia: Caetano, Mandela e... Lula

Meu irmão, jornalista, me disse que a psicanálise, hoje, parece show, está sempre na midia.
Respondi-lhe que a psicanálise, como espetáculo ou explicação, não acrescenta nada.
As aparições de psicanalistas comentando fatos instantâneos do jornalismo parecem vazias e óbvias, pouco acrescentando ao senso comum ou à descrição do acontecimento, que fala por si mesmo dentro do contexto que o inscreve.

Mas, sem dúvida, a psicanálise situa-se no campo das humanidades e faz parte da mentalidade da nossa época. Todo mundo, vez ou outra, se pega falando de seus achados.


É por isso, que a psicanálise lacaniana se interessa por conhecer as estruturas topológicas
e as suas propriedades.
Porque, depois de se desvencilhar de falações e comentários sobre qualquer fato,
o que resta é a estrutura e essa serve a uma mostração.



Mostrar é muito diferente de comentar ou demonstrar.
Comentar inclui suposições imaginárias e demonstrar exige um suporte simbólico.
Mostrar refere-se ao Real, ao que surge, ao que surpreende.
Ao que é (re)colhecido.




Roberto Carlos e Caetano Veloso, juntos, mostram que o que é belo não tem outros adjetivos.

Uma mostração tem efeitos de significação que ultrapassam as palavras e explicações.
Exemplos interessantes desse 'fenômeno da mostração' podemos encontrar em algumas situações políticas recentes que transformaram povos e países.

O filme Invictus, que recorta um momento da trajetária de Nelson Mandela no início do exercício de seu poder constituído na África do Sul, relata o momento em que o líder
mostra a seu povo que o país passara a ser um só, de brancos e negros.
Quando veste a camisa do capitão do time de rugby, Mandela sustenta a estrutura de uma
nação após o fim do apartheid e mostra a igualdade e a unidade entre os cidadãos.
Duas figuras emblemáticas representantes de dois grupos étnicos oponentes, juntas, (trans) formando um só time e um só país. A camisa com o mesmo número era o significante deste real.


No Brasil, a eleição do presidente Lula, também foi um momento de mostração.Levar à presidência da república um operário, de instrução mediana, popular no estilo de vida e no jeito de falar, foi mostrar que a nação era, de fato, coisa pública, e o mérito político, na forma da democracia, é que definia o governo.E houve muita 'falação' do grupo oponente. Dizia-se que o país iria à falência, que o PT não tinha 'quadros' para ocupar os cargos executivos, de mil e uma maneiras projetava-se o desastre.Um verdadeiro romance.

Falou-se... falou... falou-se... e o que foi aparecendo foi uma outra cena. O país crescendo, os índices econômicos melhorando, a satisfação popular aumentando. Reconhecimento externo tanto no âmbito da diplomacia quanto no de investimento de capital. E a novela teve que declinar.

Ficou muito difícil ter assunto para falação.Restou a estrutura: um governo democrático, orientado pela constituição brasileira, respeitoso quanto às tradições do povo da nação.

Os 'enfeites', além da estrutura, ou seja, a plataforma política, as prioridades, as escolhas de ação são todos legítimos, uma vez que se trata de um governo legitimamente eleito.E os oponentes têm que se haver com isso.

O real é que um operário de instrução mediana pode governar muito bem o país.

Essa torção, absolutamente, determinante para o Brasil , tem repercussão por um tempo, a priori, incomensurável e ( é por isso) se agitam 'as oposições' no momento de uma nova eleição presidencial. Recomeçam as falações que visam ocultar o que já foi visto.

A psicanálise pode apontar isso, sem fazer show.





5 comentários:

  1. Já que comentar é fazer suposições imaginárias não me resta espaço à mostração...que peninha!!
    Magoei!!

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  2. Mandela não fala em mostração (óbvio!), mas em inspiração... Há espaço para inspiração na psicanálise de Lacan?

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  3. Lulu,

    A psicanálise faz 'semblant'.
    Ela não fala em inspiração. Deixa isso para os poetas e artistas, mas está sempre se referindo a eles.
    beijo.

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  4. Ei Bia,

    A Lorena me passou o link do seu blog e eu vim dar uma "fuçadinha". Adorei seus textos, você escreve muito bem! Vou tentar acompanhar sempre que possível.

    Beijo!

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  5. Beatriz,
    Não é mesmo fácil transmitir psicanálise, pô-la na rede, vulgarizá-la, torná-la comum, com propriedade!! Parabéns!!! Vc tá conseguindo passar...um estilo. bj Angela

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