Respondi-lhe que a psicanálise, como espetáculo ou explicação, não acrescenta nada.
As aparições de psicanalistas comentando fatos instantâneos do jornalismo parecem vazias e óbvias, pouco acrescentando ao senso comum ou à descrição do acontecimento, que fala por si mesmo dentro do contexto que o inscreve.
Mas, sem dúvida, a psicanálise situa-se no campo das humanidades e faz parte da mentalidade da nossa época. Todo mundo, vez ou outra, se pega falando de seus achados.
É por isso, que a psicanálise lacaniana se interessa por conhecer as estruturas topológicas
e as suas propriedades.
Porque, depois de se desvencilhar de falações e comentários sobre qualquer fato,
o que resta é a estrutura e essa serve a uma mostração.
Mostrar é muito diferente de comentar ou demonstrar.
Comentar inclui suposições imaginárias e demonstrar exige um suporte simbólico.
Mostrar refere-se ao Real, ao que surge, ao que surpreende.
Ao que é (re)colhecido.
Roberto Carlos e Caetano Veloso, juntos, mostram que o que é belo não tem outros adjetivos.
Uma mostração tem efeitos de significação que ultrapassam as palavras e explicações.
Exemplos interessantes desse 'fenômeno da mostração' podemos encontrar em algumas situações políticas recentes que transformaram povos e países.
O filme Invictus, que recorta um momento da trajetária de Nelson Mandela no início do exercício de seu poder constituído na África do Sul, relata o momento em que o líder
mostra a seu povo que o país passara a ser um só, de brancos e negros.
Quando veste a camisa do capitão do time de rugby, Mandela sustenta a estrutura de uma
nação após o fim do apartheid e mostra a igualdade e a unidade entre os cidadãos.
No Brasil, a eleição do presidente Lula, também foi um momento de mostração.Levar à presidência da república um operário, de instrução mediana, popular no estilo de vida e no jeito de falar, foi mostrar que a nação era, de fato, coisa pública, e o mérito político, na forma da democracia, é que definia o governo.E houve muita 'falação' do grupo oponente. Dizia-se que o país iria à falência, que o PT não tinha 'quadros' para ocupar os cargos executivos, de mil e uma maneiras projetava-se o desastre.Um verdadeiro romance.
Falou-se... falou... falou-se... e o que foi aparecendo foi uma outra cena. O país crescendo, os índices econômicos melhorando, a satisfação popular aumentando. Reconhecimento externo tanto no âmbito da diplomacia quanto no de investimento de capital. E a novela teve que declinar.
Ficou muito difícil ter assunto para falação.Restou a estrutura: um governo democrático, orientado pela constituição brasileira, respeitoso quanto às tradições do povo da nação.
Os 'enfeites', além da estrutura, ou seja, a plataforma política, as prioridades, as escolhas de ação são todos legítimos, uma vez que se trata de um governo legitimamente eleito.E os oponentes têm que se haver com isso.
O real é que um operário de instrução mediana pode governar muito bem o país.
Essa torção, absolutamente, determinante para o Brasil , tem repercussão por um tempo, a priori, incomensurável e ( é por isso) se agitam 'as oposições' no momento de uma nova eleição presidencial. Recomeçam as falações que visam ocultar o que já foi visto.
A psicanálise pode apontar isso, sem fazer show.

Já que comentar é fazer suposições imaginárias não me resta espaço à mostração...que peninha!!
ResponderExcluirMagoei!!
Mandela não fala em mostração (óbvio!), mas em inspiração... Há espaço para inspiração na psicanálise de Lacan?
ResponderExcluirLulu,
ResponderExcluirA psicanálise faz 'semblant'.
Ela não fala em inspiração. Deixa isso para os poetas e artistas, mas está sempre se referindo a eles.
beijo.
Ei Bia,
ResponderExcluirA Lorena me passou o link do seu blog e eu vim dar uma "fuçadinha". Adorei seus textos, você escreve muito bem! Vou tentar acompanhar sempre que possível.
Beijo!
Beatriz,
ResponderExcluirNão é mesmo fácil transmitir psicanálise, pô-la na rede, vulgarizá-la, torná-la comum, com propriedade!! Parabéns!!! Vc tá conseguindo passar...um estilo. bj Angela